30. Julho 2019 - 19:00
Compartilhá-lo no:

Exposição "O sorriso da cor e outros tantos engenhos", de Sérgio Sister | Instituto Ling | Terça, 30. Julho 2019

De 30 de julho a 01 de novembro, o Instituto Ling apresenta a exposição O sorriso da cor e outros tantos engenhos, do artista Sérgio Sister. Por ocasião da abertura da exposição, na terça-feira, 30 de julho, às 19h, o artista e a curadora Virgínia Aita farão uma conversa aberta com o público. A entrada é franca, por ordem de chegada.
Confira o texto da curadora:
Um sorriso, reza a fábula, pode estar em qualquer lugar – no ***** de um gato ou levitando entre arbustos, pode transpor os corpos, surgindo em lugares inusitados. Mas sua luminosidade, sua fórmula secreta, não pode estar senão em relações pouco óbvias, entre coisas cuja lei de continuidade nos escapa. Em La Méthode de Leonard, Valéry observa que o mestre das analogias profundas que unificam a cacofonia aparente das coisas, Leonardo, “sabe do que é feito um sorriso: pode colocá-lo na fachada de uma casa ou nos meandros de um jardim (...). Passa da concha ao rolo do tumor das ondas (...). Ele vivifica." Esse mesmo gesto inefável, além da sintaxe, está presente em Sister. Sua paleta anuncia uma abertura lúdica ao mundo, uma disposição conciliatória e a busca persistente de um “convívio solidário com mais diferenciação e complexidade”. Explorando a polifonia das relações cromáticas, variações mínimas de humores e tonalidades, dissipa o ricto da forma para incluir o arranjo complexo da sociabilidade.
Rebaixando valores tonais, explorando granulações, ele aproxima cores num movimento conciliatório. É essa busca por uma luminosidade das pequenas diferenças que orquestra seus esforços e a variedade de artifícios que emprega, extraindo a cor da trama densa da pintura e sua rede de relações. Reverbera, assim, investigações de Josef Albers, que, atento à iridescência das aparências, justapõe cores “para tornar óbvio como se modificam e infletem umas às outras”.
Mas que sua cordialidade não nos engane: ele descobre as diferenças mais finas entre semelhantes para, então, recompor uma bela ordem dissonante. Antes, como uma trama luminosa de pinceladas recortando campos tonais, a superfície se dispersa em faixas de cor que se desprendem do plano em formas tridimensionais, interpondo espaço, sombras e ar num “jogo de colaboração”. As caixas, antes embalagens descartadas, se valem das disposições dadas para elaborar outras composições. Ripas, Tijolinhos e Pontaletes, estruturas simples emprestadas da construção civil, retêm seu caráter instável, calibrando o construtivo com experimentação para reconfigurar, num cenário expandido, novas relações cromáticas. Revestidas com tela pintada, não renunciam à natureza pictórica, como superfícies ou peles de tinta, mas acentuam sua ambiguidade.
Radical reconfiguração da pintura, essa obra revela uma liberdade genuína, que a faz se alastrar pelas margens, espaços-entre, se comprimir na forma longilínea de ripas e pontaletes que não mais contêm a superfície, mas recortam e emolduram o espaço. Sister é, sobretudo, um pintor da luz, que “antes imantava a cor” entranhada na superfície, passando a emular sua dispersão “em diferentes lugares e tempos”. Como se, para cumprir seu destino de iluminar, tivesse que percorrer, infiltrar e se infletir na espessura do mundo e na diversidade do convívio, destilando da forma uma pedagogia humanista.
Virgínia H. A. Aita, curadora.