21. Setembro 2019 - 16:00
Santa Cecília, São Paulo, Região Imediata de São Paulo, RMSP, Região Intermediária de São Paulo, São Paulo, Southeast Region, Brazil, São Paulo
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[Teatro] Almarrotada | Sábado, 21. Setembro 2019

Hoje é a milésima vez que ela faz o mesmo percurso de uma existência em função do outro e na busca da descoberta de si. Ela não tem a presença de um algoz, então, quais são as imaterialidades que fixam seu corpo num lugar feito de repetições, servidão, apagamentos e negligência? Estes são alguns dos rascunhos possíveis do monólogo “Almarrotada”, uma investigação sobre a solidão acompanhada das mulheres cuidadoras de diferentes gerações e lugares dessa orbe.

Com direção e atuação de Melina Marchetti e orientação de Luiz Fernando Marques, o Lubi, o trabalho tem duas apresentações na A Próxima Companhia, na zona central da cidade, neste fim de semana. No sábado, dia 21, começa às 21h e no domingo, dia 22, às 19h e conta com contribuições espontâneas do público no chapéu, ou seja, cada pessoa paga quanto desejar.

“No palco estão os possíveis daquela mulher e também suas impossibilidades. É a figura da mulher cuidadora, que nutre, acolhe e alimenta, no papel de figurante de sua própria existência. Foi um processo autobiográfico também, de certa forma.”, ilustra Melina.

A peça teatral é uma abraço entre gerações, é expor e cuidar de uma narrativa de apagamentos, é acolher esse lugar e olhar para esse corpo que não se vê e que foge da sua imagem espelhada, é buscar por caminhos e brechas para libertar a potência de existir.

Entre as costuras de vivências e processo de criação, a frase sem autoria definida: “é preciso ser mulher por muitos anos para desaprender as coisas pelas quais ensinaram você a se desculpar”, se juntou ao conto O cesto, de Mia Couto (1955), parte do livro O Fio das Missangas (Companhia das Letras, 2003), lido e relido por Melina nos últimos oito anos. “É uma escrita pesada e dolorida. O que mais me revira é a forma como a mulher é retratada, entre questões geracionais do viver para o outro e de não se realizar por conta de um algoz. Porém, quando o algoz não existe mais, você segue não se realizando, pois não sabe mais de que forma viver! Emociona.”, relata a diretora.

Já com essas escritas e alguns esboços, o monólogo começou a ganhar ainda mais forma para subir aos palcos com encontros de diversas contribuições. Com Sara Antunes foi em uma oficina da Oswald de Andrade para projetos de incubadora, depois veio a orientação do Lubi, do Núcleo de Direção de Teatro na Escola Livre de Teatro de Santo André (ELT), onde aconteceram as primeiras apresentações, seguidas de um convite para a peça ir para o Núcleo de Experimentação de Dramaturgia de Mulheres (NED), em São Bernardo do Campo. “Após essas apresentações, conversas e experimentações, me inscrevi em um programa de residência da A Próxima Companhia e fui selecionada para este final de semana. Em breve, almejo uma circulação pelas casas de abrigo para mulheres vítimas de violência doméstica”.

“Todo dia ela faz tudo sempre igual”
Numa conversa acolhedora, obra e público digerem juntos questões sobre o cuidar entre diferentes gerações de mulheres, com pontos de aproximação e distanciamento. Isso não apenas dentro do cenário de uma cozinha ou uma moradia, mas em tantos outros ambientes em que as mesmas questões e relações de poder aparecem, como no trabalho e nas amizades, por exemplo.

“O quanto ainda fazemos para a gente ou pelos outros? O quanto nos colocamos em segundo, terceiro, quarto plano? Com esses questionamentos, de alguma forma, faço as pazes com as mulheres da minha família, que vieram antes de mim. Consegui analisar e ressignificar questões familiares muito difíceis, porém, quando levo isso para o palco, não se torna uma obra hermética. Também me perguntei se essa conversa estaria de acordo com questões da contemporaneidade: será exagero? Será que já não passou a época? Será que dialoga?”. A pista veio do público, que ao procurá-la após as apresentações, diziam: “agora entendo minha vó”. “No palco é minha tia e eu também”.

Estamos falando de mulheres que habitam o cárcere do cuidar, seja dentro ou fora de casa. “Mesmo consciente do sistema social, observando minha avó e minha mãe, me questionei por diversas vezes: como elas não saem disso? Como permitem que aconteça? Por que precisam cuidar o tempo todo?! Então, durante o processo, vem esse entendimento e acolhimento no sentido de compreender que mesmo com tudo isso e aparentemente poucos rompimentos e desobediências, foi trilhado um imenso caminhar do que era possível para cada uma delas.”, analisa Melina.

Serviço
"Almarrotada”
40 minutos. Classificação: 14 anos.
sábado: 21h e domingo: 19h
Ingresso: contribuição espontânea no chapéu.
A Próxima Companhia – Rua Barão de Campinas, 529, Campos Elíseos, região central, próximo a estação Santa Cecília de metrô, telefone: 3331-0653, 50 lugares.

Ficha técnica
Direção, atuação e dramaturgia: Melina Marchetti
Orientação: Luiz Fernando Marques “Lubi”
Provocação cênica: Bruna Betito
Figurino: Nagila Sanchês
Figurino cenotécnico: Bira Nogueira
Produção: Melina Marchetti
Comunicação: Carolina Santaella
Fotografias de divulgação: Beatriz Costa e Luiz Fernando Marques “Lubi”

Sobre a atriz
Melina Marchetti é atriz bacharel em artes cênicas pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), fez cursos e oficinas ministrados por Bete Dorgam, Tiche Vianna (Barracão Teatro, princípio do jogo das máscaras, máscara neutra e commédia del' arte), Ésio Magalhães (Barracão Teatro), Heraldo Firmino (Doutores da Alegria), Fernando Sampaio (La Mínima), Luciana Viacava, Pepe Nuñez, Ricardo Puccetti (Lume Teatro), Angel Vianna, Andrea de Almeida, Lilian Morais (Eslipa), Vivien Buckup, Andrea Simma (Théâtre du Solei e Ecolé Jacques Lecoq), pela canadense Sue Morrison, entre outros.


Também é formada pela Escola Livre de Palhaços do Rio de Janeiro, recebeu o prêmio Destaque pela Pesquisa na Palhaçaria pelo 8º Festival de Teatro de Sarapuí e atualmente integra também o elenco da Cia. Navega Jangada de Teatro, da Cia. Teatral Circo Delas, da Cia. Lona de Retalhos e da Organização Palhaços Sem Fronteiras Brasil.

Atuou nos espetáculos: “Almarrotada, com orientação de Luiz Fernando Marques “Lubi”; “Preciosas ridículas”, com direção de Heraldo Firmino; “Os quatro cantos de elpídio” pela Cia. Navega Jangada de Teatro, com direção de Talita Cabral; “Olfato” pela Cia. do Escombro; “O filho” pelo Teatro da Vertigem, com direção de Eliana Monteiro; “Uma sociedade” pela Cia. Avenida 2, com direção de Matteo Bonfitto; “Cem anos de solidão” pelo Grupo Chá de Teatro, com direção de Verônica Fabrini; “Nós”, pelo Grupo Chá de Teatro, com direção de Matteo Bonfitto; “Luz nas trevas”, pelo Grupo Chá de Teatro, com direção de Márcio Tadeu; “Paramos” pelo Grupo Chá de Teatro, com direção de Marcelo Lazzaratto; “Dia de praia” pela Cia. Teatral Circo Delas, com direção de Glaucy Fragoso; “As clássicas” pela Cia. Teatral Circo Delas, com orientação de Bete Dorgan; “O baú” pela Cia. Teatral Circo Delas, com direção de Heraldo Firmino.


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